samedi 3 avril 2010

"Arria Marcella, souvenir de Pompéi" - Literatura Fantástica




Coloco aqui um pouco do trabalho de pesquisa que realizei para Iniciação Científica sobre a Literatura Fantástica, com atenção especial para o autor Théophile Gautier e seu conto "Arria Marcella, souvenir de Pompéi".


O Conto Fantástico no Romantismo

O Romantismo surgiu no século XVIII, após o Classicismo, com ideais diferentes das da época clássica - o “mundo romântico” buscava o irracional, o subjetivo, o sentimental e o individual - e como escreve Ana Luiza S. Camarani, “nos países europeus o fantástico surgiu juntamente com o Romantismo e nos que houve maior abertura para a escola romântica ocorreu também uma literatura fantástica mais aprofundada, como na Alemanha e nos países anglo-saxões.” (1992)
Na França a adesão ao Romantismo foi lenta e progressiva diferente, por exemplo, da Alemanha. Na qual “as idéias renascentistas penetraram menos profundamente conservando-se, assim as lendas medievais e o clima onírico; onde a valorização da razão imposta pelo Classicismo não encontrou terreno propício a seu desenvolvimento: e onde a fé foi preservada pela renovação do sentimento religioso através, sobretudo, do protestantismo, do quietismo e do pietismo.” (CAMARANI, Ana Luiza S., 1997, p. 11)

O século XVIII propiciou o renascimento do irracional, na França, nesse período coexistiam o racional e o irracional, a paixão pela análise intelectual e a curiosidade pelo estranho e pelo maravilhoso, além do espírito filosófico e científico surge o Ocultismo.
Como escrevem J. e V. Ehrsam: “Essa contradição aparente é talvez uma constante nas relações entre o irracional e o racional. Quanto mais se afirma o espírito crítico, mais ressurge a necessidade de crer no sobrenatural. A Igreja e a fé deixaram a porta aberta a todos os fervores." Como disse Roger Caillois, o fantástico “nasce quando nós não cremos mais nos milagres.” (1985)
Todorov em As estruturas narrativas escreve: “O século XIX vivia numa metafísica do real e do imaginário, e a literatura fantástica nada mais é que a má consciência desse século positivista.”

O Misticismo, que se opunha à Razão, chegou a mais alta aristocracia. Nesse período de crise há três iluministas principais: o suíço Swedenborg, Martines Pasqually e Claude de Saint-Martin.

O fantástico que não aborda temas teológicos e sim sempre temas antropocêntricos, provém do “roman noir”, do qual utiliza sobretudo o sobrenatural e o gosto pelo demoníaco.
As influências estrangeiras para o fantástico foram o inglês Lord Byron, o escocês Walter Scott que recorreu a teoria dos espíritos elementares, fato que atraiu os primeiros românticos, porque nessa época acreditava-se nos espíritos elementares em decorrência da efervescência, no século XVIII, das doutrinas ocultistas. A principal influência para o fantástico francês foi o alemão E. T. A. Hoffmann.
Outro alemão Novalis foi um autor importante para Hoffmann, anterior ao grande escritor de contos fantásticos, nutriu a obra de Hoffmann de idéias românticas, nas quais o sonho e a loucura têm lugar de destaque.

Jaques Cazotte, foi o iniciador do conto fantástico na França. Charles Nodier, o percursor do fantástico, o qual inaugurou o tema ao mesmo tempo romântico e fantástico da penetração do sonho na vida real, ele “esboçava com muito mais ousadia que nenhum de seus contemporâneos, essa revisão de valores que dá, talvez, ao movimento romântico sua significação mais profunda.” (CAMARANI, Ana Luiza S., 1992)
Ele sugeriu um sexto sentido para os seres que estivessem além das normas da razão comum e abordou o ciclo das preocupações ocultas. As quais vemos também com Gérard de Nerval e no século XX elas surgem com os Surrealistas.
Outro autor importante para o fantástico foi Théophile Gautier, o qual inspirou-se bastante em Hoffmann, por exemplo a maioria de seus contos foram escritos com o narrador em primeira pessoa. Ele experimentou todas as tendências do fantástico desde La cafetiére (1831), em que demonstra sua admiração por Hoffmann, até Spirite (1866), em que percebemos as teorias místicas de Swedenborg e a influência do espiritismo.
Dentro desse contexto o Romantismo Francês era influenciado pela política, existiram dois romantismos, um liberal e um monarquista até o ano de 1826 em que os dois romantismos tornaram-se um só e floresceu o Romantismo sobre o Classicismo.
Na Alemanha o Romantismo possuiu duas fases, a primeira foi a de Jena - que buscava a livre fantasia, a crítica literária, a reflexão filosófica e a orientação cosmopolita -, Novalis colaborou na revista Athenäum, que era o principal modo de divulgação do grupo de Jena. A segunda fase do Romantismo foi a de Heildelberg, nesse período, após 1806, a Literatura assumiu o papel de oposição à política expansionista de Napoleão, - essa fase buscava os modelos da tradição nacional e mitológica, a filologia, a pesquisa histórica, a mitologia e a orientação nacionalista.
O fato da busca da orientação nacionalista aproxima bastante o Romantismo Alemão do Romantismo Brasileiro. Eloá Heise e Ruth Röhl escrevem: “com a Independência, busca-se, também aqui, a autonomia e a identidade nacional. Enquanto os autores alemães se voltam para a literatura popular da Idade Média, tida como expressão autêntica do espírito do povo, os brasileiros (por exemplo, José de Alencar) encontram no índio um símbolo equivalente, como imagem da nacionalidade.” (1986, p.48)
Outro autor brasileiro influenciado pelo romantismo europeu, mais especificamente pelo fantástico, foi Álvares de Azevedo, que no prefácio de Macário faz alusão a Hoffmann e ao escrever Noite na Taverna, mostra mais intensamente a influencia desse escritor sobre Álvares. Também no poema Idéias Íntimas Álvares refere-se ao alemão sem nomeá-lo.

Elementos da narrativa fantástica identificados em "Arria Marcella, souvenir de Pompéi":
* a mulher morta ressuscitada pelo desejo do amor ;
* o duplo;
* o “dia noturno”;
* narrador em terceira pessoa, testemunha;
* o inanimado animado;
* o amor impossível realizado;
* o passado mítico;
* a personalidade de Octavien desejosa de algo além do natural, como em: “às vezes também ele amava as estátuas, e um dia, ao passar no Museu em frente à uma Vênus de Milo, gritou: “Oh! quem te devolverá os braços para me apertar contra teu seio de mármore.” [...] “ele queria sair do tempo e da vida, e transpor sua alma ao século de Titus” (“Arria Marcella” p.251)
* a angústia da personagem;
* a hesitação;
* a dúvida da personagem se sonha, se está louco, se tem alucinações
* a sensualidade
* elementos de vampirismo : “Arria não comia mais, mas ela trazia sempre um vaso repleto de um vinho púrpura sombrio como um sangue coagulado” (“Arria Marcella” p.266)
* a embriaguez: “...les pauvres insensés enivrés par tes philtres.” (Idem p.268)
* realidade atemporal: “eu compreendi que eu a amaria além do tempo e do espaço” (“Arria Marcella” p.267)

O fantástico em Gautier muitas vezes é acompanhado da presença da noite “o dia noturno” que tem sua duração interiorizada no conto e “fixado na percepção de eternidade.[...] Mas o que importa mais ainda é a presença do sol interior brilhando permanentemente, sem ser submetido à sucessão cíclica das auroras e crepúsculos. [...] Através do conto fantástico Gautier busca esse sol. [...] apaga as fronteiras entre o possível e o impossível” (Eigeldinger )
A arte não precisa ser funcional. Entretanto quando a Literatua Fantástica, com sua quebra da realidade, consegue através de um outro mundo criticar e analisar o nosso ela nos liberta para a fantasia e assim permite que nos desvencilhemos tanto da censura social quanto da nossa "barreira de censura" e dessa forma podemos reconstruir nosso mundo real.


Angelina.

Bibliografia:

CAMARANI, Ana Luiza S. Tradução e Poética: Charles Nodier. São Paulo, 1997.
EIGELDINGER, M. “Introduction” In: Gautier, Th. Récits fantastiques. Paris: Flammarion, 1981 EHRSAM, J. et V. La littérature fantastique en France. Paris: Hatier, 1985.
MACHADO, G. M. (org.) O Romantismo Francês, seus antecedentes, vínculos e repercussões. Araraquara: UNESP, 1992, cap. O conto fantástico no Romantismo, CAMARANI, Ana Luiza S.
MAGALHÃES, R. Junior. Poesia e vida de Álvares de Azevedo. São Paulo: Ed. das Américas, 1962.
RÖHL, R. & HEISE E. História da Literatura Alemã. São Paulo: Ática, 1986.
RODRIGUES, S. C. O fantástico. São Paulo: Ática, 1988.
TODOROV, T. As estruturas narrativas. São Paulo: Perspectiva, 1970. (parte II, cap. 5)

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