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vendredi 19 juin 2015

Des amours pour l'éternité - Amores para a eternidade: Seguimos.




Há pessoas que transformam as nossas vidas. Elas são Presentes para a nossa existência, estejam elas neste planeta ou não mais.

Os filmes Peixe Grande e La délicatesse retratam como há seres transformadores e se os perdemos precisamos ter coragem e força de seguir em frente com eles dentro do nosso coração.
Pois a memória que temos deles continua viva e também os traços que eles deixaram em nós.



Coloco a seguir a canção Bel Amour do filme La délicatesse, o qual recomendo vivamente.
E recomendo muito também o filme Peixe Grande, do qual a atriz francesa Marion Cotillard faz parte, e onde vemos como permitir que as pessoas nadem no grande oceano da vida é importante, fortalecedor e maravilhoso.


"Bel Amour
Si je pouvais bâtir, 
un soleil, un empire 
pour toi, 
Si je pouvais bâtir,
un soleil, un empire
pour toi,
sans hésiter
cent milles fois,
je le ferais

si je pouvais tout changer
et si je pouvais braver
la mort, j'irais te chercher
plus jamais je ne te quitterais

si les lumières du matin pouvaient ramener tes mains, ton corps et ta chaleur,
mon amour
non, je n'aurais plus peur

quand je ferme les paupières
j'entends ta voix et j'espère
pouvoir enfin, retrouver
mon bel amour pour l'éternité"     



Os seres amados nos habitam e estão sempre conosco; portanto: Seguimos.


mercredi 30 juillet 2014

Literatura francesa sempre contemporânea: Le chat Potté et Le chat Botté - O Gato de Botas.

Le Chat Potté da imagem deste texto é o gato corajoso, simpático, inteligente e bonito que no filme norte-americano de 2004 "Shrek 2" ajuda o ogro, a princesa e o Burro. A partir deste filme o Gato se torna personagem fundamental nos filmes de Shrek. o Gato de Botas é tão querido e impactante que em 2011 foi lançado o filme dele sozinho e um curta chamado "Le Chat Potté et les trois diabolos".

O Chat Potté dos filmes é inspirado no conto "Le maître chat ou le chat botté", escrito pelo francês Charles Perrault (1628 - 1703) em 1695.
Nesta história que comoveu gerações desde que foi publicada nos traz um gato com o poder da palavra e grande inteligência e este ser que poderia ser visto como frágil, pequeno e tantos outros adjetivos que o tornariam incapaz que realizar seus objetivos; este pequeno gato trará paz e riqueza para seu dono, o Marquis de Carabas e para si mesmo.

O Chat Potté contemporâneo tem algo de Zorro; vejam como o Gato faz sua assinatura com a espada na árvore. Há também uma brincadeira com palavras pois nosso querido amigo Chat tem um grande chápeu, em francês: "Chapeau" que pronuncia-se [chápô] e para o nome Chat Potté dizemos [chápôtê].

Para quem quiser conhecer mais sobre Le Chat Potté recomendo:

1. o curta "Le Chat Potté et les trois diabolos", ele está a seguir:






e  2.  o site http://www.lechatpotte.com/ 















je vous lèche. Oh, ops! bisous à tous, 
lambidas. Oh, ops, beijos a todos,

Angelina Renard.



jeudi 24 juillet 2014

Tanto a descobrir neste novo mundo, tão diferente do ventre materno. Crianças, bolos, Françoise Dolto, Hannah Arendt: um pouco sobre a cultura francesa

Les gâteaux, os bolos, trazem momentos especiais para os franceses de todas as idades.
Quando os preparamos com as crianças temos a oportunidade de realizar uma tarefa na qual os "recém-chegados" (um modo como os pequeninos são chamadas pela filósofa Hannah Arendt) tem uma responsabilidade: nos ajudar a preparar o bolo. E um incentivo, pois fica claro, para as crianças, que confiamos na capacidade delas.

Enquanto preparamos o bolo podemos conversar e incentivar os recém-chegados a falar com clareza. Quando uma pessoa se exprime de forma clara ela pensa de forma clara também.
A educação francesa busca desenvolver a autonomia e o respeito, o pensamento ordenado e a expressão clara desde o início da infância.

As crianças francesas sabem que fazem parte do mesmo mundo que seus pais.
Eles precisam sempre cumprimentar as pessoas e no momento das refeições as crianças se sentam à mesa com os adultos e comem o mesmo menu (ele pode ser adequado para a idade, mas será o mesmo cardápio). Na França come-se 3 refeições por dia e 2 lanches, não mais que isso.

As crianças são totalmente capazes participar das refeições. A cada nova refeição, seja em casa, seja em restaurantes, fica mais evidente para os pequenos que eles fazem parte do mesmo mundo que os seres maiores e, portanto, devem e podem se comportar e aproveitar o momento da refeição. (Não existe dar janta para a criança antes de ir ao restaurante.)

As crianças podem sair antes dos adultos da mesa; e à noite, quando bem pequenos, nem sempre jantam com pais pois elas dormem cedo.
As crianças tem horários e responsabilidades desde sempre e isso as ajuda muito.

A pediatra e psicanalista francesa Françoise Dolto solicitava das crianças maiores que ela atendia o pagamento das sessões. -Como assim?! Françoise pedia que as crianças a pagassem com uma flor, um galho ou outro objeto, isto é simbólico para que as crianças percebam que possuem independência-autonômia, responsabilidade e também recursos.

As crianças na França estão dentro da sociedade humana desde que nascem.
(Diferente da América, onde em muitos países as crianças são "outras coisas" sem responsabilidades e nem capacidades. Pelos filhos muitos pais da América se anulam, isso não é bom para ninguém. E diversas vezes colocam um monte de atividades para o filho: inglês, judô, informática etc e entretanto não permitem que ele conviva e descubra-se. Isso não o ajuda na formação como pessoa.)

Confiança, autonômia e respeito são palavras chaves na cultura francesa. Para quem quiser conhecer um pouco mais sobre a educação francesa recomendo o livro "As etapas decisivas da infância" de Françoise Dolto.

A seguir os links para as receitas do Gâteau au Nutella e do Gâteau au Yaourt, a preparação destes bolos pode ser um momento de descoberta para as crianças, de trabalho em equipe (filhos e pais) e de confiança na capacidade dos recém-chegados com tanto a descobrir neste novo mundo tão diferente do ventre materno.

- Bonne dégustation.

   





à plus,
Angelina Renard.

lundi 9 juin 2014

Maléfique - Malévola

O filme Maléfique - Malévola estreou em 28 de maio na França e no dia 30 no Brasil, nele a personagem principal é Maléfique a qual teve sua primeira aparição em 1959 no filme A Bela Adormecida, adaptado do conto de Charles Perrault, revisado pelos irmãos Green, nele ela substitui a malvada fada Carabosse.

Maléfique era uma boa fada, entretanto algumas situações fizeram com que ela deixasse que a tristeza, a mágoa e o desejo de vingaça alterassem sua personalidade. E quando Maléfique não é convidada para o batismo da princesa Aurora ela se revolta e toma atitudes drásticas.

No filme do diretor americano Robert Stromberg nos é revelado o motivo das tristezas e reações más de Maléfique; e também como ela possui o Amor escondido dentro de seu coração, originalmente puro. Curiosamente a princesa Aurora permitirá que Malévola experimente novamente a amizade e o amor, os quais mudarão o mundo de todos os seres.


O trailer do filme na versão em francês:
"...la véritable histoire ...
-Et bien et bien! Je dois moi aussi offrir un cadeau à cet enfant..."


Trailer com os filmes de 1959 e de 2014 em inglês:





-Et bien et bien... bon film! 

Angelina Renard

dimanche 15 septembre 2013

Pai

o músico Emicida, lançou em 2013 a música "Crisântemo".

coloco aqui o clip gravado em maio de 2013 na "Ocupação Mauá", centro de São Paulo, e também a versão para o novo cd.

esta música mostra o que é Arte: algo cotidiano, nascido da experiência vivida e tornado universal.
O mesmo que fez Marcel Proust, por exemplo. Quantas pessoas gostariam de que a mãe os esperasse dormir? Proust abre "Em busca do tempo perdido" com isto com sua narrativa que abrange o universal, a partir de uma escrita única.

Em "Crisântemo" não é o pai do Emicida, não é o pai da Angelina, nem o da Vera ou de nehuma outra pessoa específica. Aqui é a experiência e o sentimento que ultrapassam países.

" Perder o pai já é uma tragédia
  Perdê-lo na infância é sentir saudade
  Não do que viveu, mas do que poderia ter vivido.
   ...
  Quando o pai morre
  A gente perde a mãe também"







com João Corrêa de Souza.

Angelina.

lundi 24 juin 2013

o olhar

"Você acha que é mais bonita do que você diz?"

a empresa Dove lançou um video, ganhador do prêmio máximo do festival de publicidade de Cannes. Nele a própria pessoa se descreve e depois outra pessoa a descreve: Percepções sobre o mesmo ser.

- Como nos observamos e como as outras pessoas nos observam?  

- Como percebemos a nós mesmos e o mundo; e como os expressamos para os outros. 

- A percepção de nós mesmos e do mundo interferem em como significamos e resignificamos a vida?


Para quem quiser refletir um pouco sugiro o ensaio "A dúvida de Cézanne", no livro O olho e o espírito, de Merleau Ponty.

Aqui um desenho  feito por um grande amigo e artista, Renê Trindade, da autora deste texto, como ele me enxergou; em um dos locais que mais amei trabalhar até hoje: o atelier do MAC-USP.

A seguir o vídeo da Dove:



- Como você se vê?
 - Você acha que é mais bonita do que você diz? 

Angelina Renard

mercredi 24 avril 2013

des Refusés - Recusados

o texto "Obras-primas recusadas" d'Affonso Romano de Sant'Anna trata de alguns Escritores rejeitados na sua época e reconhecidos após. Entre eles os franceses:  Mallarmé que teve poema musicado por Debussy   e Marcel Proust que alterou as noções de tempo e espaço na literatura e trouxe o fluxo de consciência.

No texto de Sant'Anna ainda poderiam entrar  diversos exemplos não só de escritores como também de pintores.
Lembrem-se que nas artes plásticas houve o "Salon des Refusés" em 1863 com obras de Manet, de Pissarro, do inclassificável Cézanne e de outros Pintores impedidos de participar do salão oficial.
Os participantes do salão oficial, que seguia o gosto oficial, foram esquecidos e não deixaram nenhuma marca para as Artes, diferente dos pintores que expuseram suas obras no Salon des Refusés.

o texto "Obras-primas recusadas" segue abaixo por dois motivos:
1. para que se aproximem mais da literatura francesa e mundial
e
2. para que continuem firmes no que acreditam: as recusas de hoje podem ser sinal de incompreensão diante de trabalhos à frentre de sua época.


" Obras-primas recusadas
Affonso Romano de Sant'Anna
Texto originalmente publicado, em duas partes, em janeiro de 2005, no jornal O Globo e integrante da coletânea de crônicas A cegueira e o saber. (Rocco, 2006) 


Engana-se quem acha que a carreira de grandes artistas é feita só de glórias e aplausos. É constituída de mil tropeços, fracassos e rejeições. Só que esses percalços, por terem sido superados, praticamente desaparecem ante o brilho que a obra ganha na posteridade. Por isto, o escritor que tem seus livros na gaveta e não encontra editor, ou aquele que manda originais para aqui e para ali e, às vezes, não merece sequer uma resposta; ou aqueles que distribuem seus textos pelas editoras e recebem aquela clássica desculpa de que “sua obra é boa mas não se enquadra nos projetos editoriais desta casa”, todos esses devem ter algum consolo ao saberem que Francis Scott Fitzgerald, hoje tido como um dos melhores contistas modernos da literatura norte-americana, era um colecionador de recusas editoriais. Sua biografia registra que, em 1920, tinha dependurados no seu quarto 120 bilhetes de recusas para publicação de seus contos. Deve ser igualmente consolador ser informado que James Joyce, o grande reformulador do romance no século XX, reconhecia, numa carta de 1916, que seu livro de contos Retrato do artista quando jovem havia sido recusado por vários editores. Esses lhe diziam sempre : “Bom trabalho, mas não se paga”. Igualmente, Ludwig Wittgenstein, que abalou o pensamento filosófico do século passado, recebia, à altura de 1921, repetidos comunicados dos editores dizendo que “não entendiam uma só palavra” do que ele havia escrito. Bem que Bertrand Russell, tentando lhe abrir as portas, fez uma introdução de 16 páginas para ver se as casas editoriais se interessavam pelo Tractatus logico-philosphoficus. Nem assim. Russell, finalmente, depois de muito empenho, conseguiu publicá-lo na Inglaterra. E a coisa não pára aí. Hemingway expediu o seu Torrentes da primavera, mas um editor lhe respondeu afirmando que seria sinal de mau gosto publicá-lo. Caso meio parecido ocorreu com D. H. Lawrence – seu próprio editor suplicava que não publicasse O amante de Lady Chatterley, por achar que era por demais arrojado e ia lhe criar problemas, por isto o livro acabou saindo em Florença em 1928, numa edição particular. D. H. Lawrence, aliás, vivia tendo problemas com o que queria publicar e, entre os seus livros, Mulheres apaixonadas foi o mais recusado. As histórias dessas recusas e de muitas outras foram coligidas por Mario Baudino no livro Il gran rifiuto (“A grande recusa”), editado pela Longanesi, de Milão, em 1991. O leitor vai se espantar e pode até se sentir estimulado a continuar recebendo negativas sem tanto sofrimento. J.R.R. Tolkien, do avassalador O senhor dos anéis, teve, na década de 30 do século passado, dificuldades com a publicação de seu Silmarillion, que dormitou na gaveta algum tempo. Quem não se lembra, nos anos 60, do nome emblemático de Marshall McLuhan, o canadense que com The medium is the message reinaugurou a fase moderna dos estudos de comunicação? Pois apesar disto, na Itália, sua obra foi recusada na coleção Adelphi, sob a alegação de que “é um livro de um pequeno louco”. E há casos ainda de negativas unânimes como o Lolita, de Nabokov, originalmente rejeitado por todos os editores americanos. A lista é espantosa. Moby Dick, de Herman Melville, foi refugado com a alegação de que não era “adaptado ao mercado para jovens na Inglaterra”. O poema “Après midi d’un faune”, de Mallarmé, que seria musicado por Debussy e virou balé com Nijinsky, foi esnobado pela revista Parnasse contemporain por ordem de Anatole France. Já o primeiro livro de Arthur Conan Doyle, o criador do detetive Sherlock Holmes, Um estudo em vermelho, não chegou a ser sequer lido pelo editor a quem foi enviado. E o que dizer do bilhete com que despediram Rudyard Kipling do jornal onde trabalhava?: “Aqui não é um asilo para escritores diletantes. Lamento, senhor Kipling, mas o senhor não sabe escrever em inglês”. Também Ezra Pound, que abalou a poesia de língua inglesa no princípio do século XX, não foi aceito pela Quartely Review porque havia publicado na revista futurista Blast (1918). E T.S. Eliot teve que ler este bilhete do editor John Lane: “A obra do sr. Eliot é brilhante, mas não pertence ao gênero que adicionamos ao nosso catálogo”. E por aí segue a lista. Bernard Shaw, Céline, Irving Stone, Cummings, Italo Calvino, Gertrud Stein, Moravia, García Márquez e até o caso de George Orwell (Animal’s farm) . Mas nesse caso houve uma agravante, pois o parecer era de ninguém menos que T.S. Eliot, aliás, politicamente um conservador, que assim se manifestou: “Não tenho nenhuma convicção de que esta seja a crítica justa à atual situação política”. Além disto, os editores americanos tinham reservas sobre aquela obra de Orwell, alegando que o livro seria menos ofensivo se os personagens não fossem porcos. Muito se pode discutir sobre esses fatos. A tendência natural dos escritores é culpar os editores por falta de visão. Isto é simplificar por demais a questão. Todo escritor, em princípio, acredita em sua obra, e alguns estão seguros de que ela é genial. Mas as coisas são mais complexas do que parecem. Casas editoriais não são necessariamente instituições de caridade e mesmo entre os pareceristas e entre os diversos grupos escritores há interesses subjetivos e ideológicos. E entre tantos casos da literatura moderna, dois se tornaram célebres: as recusas de Em busca do tempo perdido de Proust, e O Gattopardo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. * * * O caso de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, tornou-se o mais clamoroso. Primeiro, porque o autor foi recusado não apenas por um, mas por vários editores. Segundo, porque essa recusa era meio estranha, posto que o autor estava disposto a pagar a edição e até mesmo a financiar a publicidade. Há várias justificativas que tentam atenuar esse erro editorial. Como assinala Mario Baudino, a indústria editorial francesa estava economicamente em crise, em 1912, quando as recusas à obra de Proust ocorreram sucessivamente. Mas isto não basta para explicar, posto que o autor estava disposto a pagar não só a edição, dividir os possíveis lucros com o editor além de financiar a divulgação, num gesto premonitório da atual sociedade do marketing. Deste modo, pode-se concluir que os leitores especializados que examinaram os manuscritos não sabiam o que fazer diante daquela narrativa longa e pormenorizada, que contrariava o que estava entrando na ordem do dia, que era a arte de vanguarda pregando a fragmentação, a velocidade, o louvor à máquina e à violência. Enfim, para eles, Proust vinha com uma obra “velha”, “ultrapassada”, “burguesa” e “alienada”. E quando o livro apareceu em 1913, financiado pelo autor através da pequena editora Grasset, iniciou-se então a trajetória de seu sucesso que desmoralizaria essa perversa mania do “novo” trazida pela modernidade e os modernosos. A editora Fasquelle justificava sua recusa a publicar o romance de Proust alegando que era muito grande e que o público não estava acostumado a esse tipo minucioso de descrições. Já a editora Gallimard submeteu o texto de Proust a pelo menos dois leitores: Jacques Normand e André Gide. O primeiro ironizava o romance dizendo que depois de 712 paginas “não se tem nenhuma noção de que coisa se trata”. De tudo salvam-se “umas seis páginas”. Fazia ainda considerações sobre o personagem sexualmente “invertido” e assinalava que era mesmo um “caso patológico”. Já o outro – André Gide – mesmo sendo homossexual não se deixou seduzir por esse aspecto da obra. Apenas a folheou e a recusou alegando, preconceituosamente, que o autor era um ricaço freqüentador de salões mundanos, e que havia, ainda, uma outra agravante: Proust era colaborador do conservador Figaro. Assim acumulavam-se razões nada literárias para a rejeição. E Gide, que apenas folheara o livro, ainda alegava que o autor tinha tido pouco escrúpulo em dizer que pagaria a edição se fosse preciso. Proust, no entanto, tinha tanta confiança em seu livro, que dizia que a publicação era apenas uma questão “técnica”. Por isto não se vexava de financiar a edição e a publicidade. Mas não deixa de ser estranho e sintomático que o livro tenha colecionado outras recusas. Além da Ollendorf, que havia editado Maupassant e Romain Rolland, Proust entregou o manuscrito a Alfred Humblot, que pede a Louis Boyer para lê-lo. E este é fulminante: “Não consigo entender como se pode empregar trinta páginas para descrever como se vira e revira na cama antes de pegar no sono”. Em 14 de novembro de 1913 a pequenina Grasset lança Du côté de chez Swann. Graças a uma boa campanha publicitária orquestrada vendem-se 1.500 exemplares e, uns quatro meses depois, o total chega a três mil. Proust e o editor tentam concorrer ao prêmio Goncourt, mas não dá mais tempo. Contudo, os outros editores que haviam recusado a obra começam a se arrepender e a procurar o autor. Inclusive André Gide, depois que vários autores da Nouvelle Revue Française (NRF) começam a elogiar Proust. Três meses após o aparecimento do livro, Gide escreve uma carta histórica a Proust se desculpando: “Ter recusado este livro ficará como o mais grave erro da NRF (e me toca a vergonha de ter sido em grande parte o responsável) e um dos remorsos mais cruéis de minha vida”. Enfim, as peripécias pelas quais passou a obra de Proust mereceram até um estudo de Franck Lhomeau e Alain Coelho – Marcel Proust à la recherche d’un éditeur (Olivier Orban). Já a célebre recusa de O Gattopardo (1958), de Tomasi di Lampedusa, entre outras coisas, exibe o danoso preconceito político e ideológico no julgamento de obras. Como o disse Andrea Vitello na biografia dedicada a Lampedusa, o escritor comunista Elio Vittorini foi o responsável pela recusa daquela obra-prima que viria ser filmada por Visconti tendo Alain Dellon, Claudia Cardinalle e Burt Lancaster nos papéis principais. Mas obedecendo aos preconceitos do partido, Vittorini, usando de sua influência politica, interditou a obra em duas editoras: na Mondadori e na Einaudi. Entre as alegações ideológicas, Vittorini perfilava: “Desde que eu escrevo tenho me batido pela renovação moderna da literatura. Entenda que não posso me impor de gostar de um escritor que se manifesta através de esquemas tradicionais. Poderia gostar de O Gattopardo só como obra do passado que houvesse sido descoberta num arquivo qualquer”. Quantos de nós não temos lido e ouvido tolices semelhantes emitidas pelos praticantes da neofilia? Na verdade, Vittorini, que se julgava um intelectual engajado, estava censurando a visão histórica e política do nobre Lampedusa. De certo modo repetia-se aqui o veto dado a Proust, por ser um aristocrata. Gide, pelo menos, se arrependeu publicamente do erro em relação a Proust. O caso de Vittorini é lamentável. Porque mesmo quando o livro finalmente saiu e começou a ser aclamado pela crítica e pelo público, os partidários da literatura de uma nota só escreveram textos e cartas de apoio a Vittorini reafirmando que a obra-prima de Lampedusa era uma bobagem.
Leio essas coisas e fico pensando se alguém não poderia fazer um levantamento sócio-literário sobre equívocos semelhantes ocorridos na literatura de língua portuguesa. Neste caso, os mal-entendidos poderiam ser examinados inclusive nos dois sentidos. Não apenas em relação aos que foram obstaculizados, mas também em relação àqueles que num dado momento, por injunções várias, viram celebridade e, de repente, noutro instante mergulham no ostracismo."


-Bon courage. 

A. Renard

vendredi 12 avril 2013

Bike e as mulheres na Arábia Saudita

Em abril de 2013 foi permitido pelas autoridades da Arábia Saudita que as mulheres andem de bicicleta desde que seja para entretenimento, em áreas de lazer, acompanhadas de um homem e com a "abaya" (vestimenta que se usa sobre as outras).

É bem pequena esta permissão, as mulheres não podem se locomover de bike para o trabalho, por exemplo.

Entretanto, há algo no nível do simbólico e da esperança. As mudanças, mesmo em sistemas rígidos, acontecem.

Em 2012 foi lançado no Festival de Veneza o filme Wadja. Ele foi o primeiro filme inteiramente feito na Arábia Saudita e dirigido por uma mulher.

Nele a nossa protagonista, uma menina de 12 anos, quer uma bicicleta e muito mais: ela deseja  liberdade, respeito e igualdade.
Uma menina corajosa, determinada e sonhadora.
Wadjda, mesmo com as restrições impostas para o uso da bicicleta, reflete a transformação atual e o desejo eterno de uma vida plena.




                                                               imagem de www.tv5.org


Angelina.

jeudi 10 janvier 2013

Très bonne année 2013

Très bonne année 2013. 
Je vous souhaite l'amour, le bonheur, la santé, la persévérance et du courage. 



Angelina
          ^^

mercredi 20 juin 2012

Bikes feitas para comover.

A palavra "comover" significa "mover junto" é isso que experimentamos quando vemos um quadro ou lemos um livro que nos impulsiona a repensar e a fazer algo; e as bikes: bicicletas públicas, vélos dobráveis, híbridas, speeds, fixas, todas as bicicletas, trazem em si o poder e o potencial que vai além de meio de transporte, de prazer e de interação: com bikes vivemos a comoção que transforma a pessoa e o mundo.

Está no Matilha Cultural a exposição "Cidades para pessoas" que retrata a primeira parte do projeto jornalistico que percorrera 12 cidades do mundo com a jornalista Natalia Garcia morando 1 mês em cada uma delas a procura de experiências, ideias e formas para colocar em prática um planejamento urbano no Brasil que permita o país para todas as pessoas. E a bike entra nesta transformação: boa opção para nos locomovermos e movermos o mundo.

"Cidade para pessoas" revela reflexões de como as cidades precisam ser feitas para todos e não só para carros, como é possível mudar a relação das pessoas com o entorno: com a vida; a expo nos mostra formas  de mudar a locomoção e urbanização das cidades e como as pessoas fazem parte fundamental da polis e são (e os que ainda não o são podem vir a ser) sujeitos ativos no microcosmo do bairro, da cidade e no macrocosmo do planeta.


A expo está até dia 9 de julho no Matilha Cultural, com as seis primeiras cidades visitadas pelo projeto.

Vale a pena a visita.
O Matilha Cultural fica na Rua Rêgo Freitas, 542, Centro de São Paulo.

Links:   http://matilhacultural.com.br/  e  www.cidadesparapessoas.com.br    


Vejam a palestra para o TEDxJovem em dezembro de 2011 feita na universidade Uma Paz, no parque do Ibirapuera, com tema "As Microrevoluções".



Alguns trechos do vídeo:
“... aí eu comprei uma bicicleta... e as minhas relações com a cidade mudaram muito... me locomover de um jeito mais inteligente. O que mudou? Ao invés de me proteger da rua eu passei ocupar a rua... trocas muito mais ricas...

Deparei com essa parede ... debaixo da ponte... –“cê está vendendo esses quadros?” “- não eu pendurei pelo Bonito”... que eu não veria se eu continuasse tendo uma situação de proteção com a minha cidade...
  
o tempo de atravessar a Paulista passou de 35 para 5 minutos... eu era muito mais paquerada no transito... e nunca mais eu perdi tempo procurando lugar para estacionar meu carro... e eu descobri uma nova cidade... bicicleta é economicamente melhor...”


vélibs no Canal Saint Martin.


Bikes para transformar e comover.

A. Renard 

samedi 31 décembre 2011

"...novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha..."

Hoje é dia de fazermos receitas gostosas para a ceia e então lembrei de uma receita do meu mestre Carlos Drummond de Andrade.
Segue abaixo a receita-poema, o fazer está dentro de cada um de nós.



"RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."

Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.

A. Renard

mardi 14 juin 2011

O Início

No dia do aniversário de Fernando Pessoa, uma pequena homenagem minha à esse poeta atemporal e universal, com meu poema "O Início".

O Início

Dentro da manhã cinza

Dentro do casaco marrom

Os olhos, a boca, o sorriso

O início

-Não!


Encontro alguma poesia,

mas ouço:

- Não sonhe, não ame!


Proteger-se, fechar-se

Ou não?

Claro enigma.


O risco da felicidade

Por um momento ou muitos

O risco ou um resquício?

O encanto hoje.

O Início.

Angelina



(Este meu poema faz referências a Carlos Drummond, mas cabe aqui porque nosso poeta brasileiro, da mesma forma que Fernando, tem um trabalho livre na forma e no conteúdo: pura poesia. Chegarei nesse nível de escrita.)

[Fernando Pessoa (13/06/1888 - 30/11/1935)]


vendredi 13 août 2010

Evandro Carlos Jardim - A NOITE, NO QUARTO DE CIMA, O CRUZEIRO DO SUL, LAT. SUL 23 32 36, LONG. W.GR. 46 37 59, 1973 - 2010: REVISÃO


A Exposição A NOITE, NO QUARTO DE CIMA, O CRUZEIRO DO SUL, LAT. SUL 23 32 36, LONG. W.GR. 46 37 59, 1973 - 2010: REVISÃO de Evandro Carlos Jardim termina no próximo domingo, dia 15 de agosto de 2010.


Esta exposição nos traz obras expostas em 1973 no MASP com a curadoria de Pietro Maria Bardi e também trabalhos inéditos.

Temos no subsolo do MASP a Arte Contemporânea de um Artista vivo que vê a arte como algo sempre em maturação e com ela passa pelas questões da visibilidade - o ser humano relacionado com o mundo visível – em investigações sobre a realidade e seus planos (objetivo e subjetivo).

Nesta exposição podemos ver a Idéia que passa pela Técnica, mas muito mais que isso ganha vida quando o Professor Evandro a realiza torna-a real, com a prática e o desejo de transmitir algo, pela a fusão de Idéia, Técnica e Práxis temos a manifestação poética de Jardim.







Nas 250 obras expostas há a possibilidade de diversas relações na busca do que a imagem encerra nela mesma e que quase nunca é visível: os outros planos.





É a celebração da manifestação poética, como disse o Prof Evandro: “inquietação de viver um vir a ser... E tentar transmitir algo” em um trabalho sério de busca e manifestação na gravura, no desenho, nunca terminados, em que a Experiência Vivida, o cotidiano, as imagens que Jardim via e vê do seu quarto e ao mesmo tempo a Técnica e o Rigor Crítico transformam em Poética, em Arte: um Fenômeno do Ser.




Há experiências que mudam nossas vidas. Os trabalhos desta exposição o significado universal e atemporal, que vai além da experiência individual do artista, e a pulsação de um trabalho artístico comprometido e transformador, em que a primeira exposição de Jardim, com este mesmo nome, foi antes do meu nascimento e as obras que estavam lá e estão expostas agora são vivas e contemporâneas: fontes de desvelamento e prazer. Grande experiência.


Pude apreciar na prática o que escreve Merleau-Ponty em A dúvida de Cézanne: “...A expressão do que existe é uma tarefa infinita(Pág. 118).
Em A NOITE, NO QUARTO DE CIMA, O CRUZEIRO DO SUL, LAT. SUL 23 32 36, LONG. W.GR. 46 37 59, 1973 - 2010: REVISÃO Evandro Jardim divide conosco seu trabalho infinito.
E utilizando as palavras do Evandro Jardim Professor, convido a todos a verem ou reverem a exposição e assim viverem uma grande “experiência poética”.



A. Renard.




Exposição
A NOITE, NO QUARTO DE CIMA, O CRUZEIRO DO SUL, LAT. SUL 23 32 36, LONG. W.GR. 46 37 59, 1973 - 2010: REVISÃO
de Evandro Carlos Jardim
No MASP
Avenida Paulista, 1578 - Cerqueira César
(55 11) 3251-5644
Até dia 15 de agosto de 2010.

dimanche 8 août 2010

La fête des pères para João Corrêa

Hoje, 08 de agosto, comemora-se no Brasil o Dia dos Pais. Na França esta festa ocorre em julho (neste ano foi no terceiro domingo deste mês, dia 21).

Coloco aqui o curta "La fête des pères", de Marie Berto, premiado no 1° Prix Festival d'Altkirch.
Prestem atenção na música que o pai canta e volta no final: "Un Minimum" de Cécile Phi: "...Il suffit d'un mini mini mini minimum pour être heureux, d'un mini minimum..."



E aproveito aqui para homenagear meu pai com o curta, a música e com a "Canção pra você viver mais" do Pato Fu.
Eles mostram o "minimum" que nos faz viver mais.
Para João Corrêa de Souza, uma pessoa que é imortal.



Angelina.

vendredi 2 juillet 2010

29ª Bienal de SP e outros Salons - "Existe sempre um copo de mar para um homem navegar"

De 21 de setembro a 12 de dezembro teremos a 29ª Bienal de SP. Momento da arte contemporânea mundial. Esta exposição se propõe a ser um campo - ou terreiro, como serão chamados cada um dos seis espaços em que está organizada a mostra - não de Verdades absolutas, mas de reflexão e fruição.



A primeira Bienal de SP aconteceu em 1951, e nela temos a "Unidade tripartida" de Max Bill, prêmio internacional desta primeira edição. Lembro que nem todos os premiados em salões realizam trabalhos transformadores. Entretanto estas mostras podem ser uma bússola (como os curadores da Bienal bem escolheram a imagem) para pessoas que apresentam e representam o mundo através das artes e para todos que amam arte.

Em 1863 tivemos o "Salon de Réfuses" com obras de artistas como Manet, Pissarro e do inclassificável Cézanne; todos eles foram recusados no Salon de Paris porque fugiam dos parâmetros pré-estabelecidos. E pergunto: -Quem lembra do nome, ou pelo menos da obra do vencedor do Salon de Paris de 1863?

O mundo não seria o mesmo sem: (citando somente alguns exemplos francófonos):

*o trabalho de Cézanne;

*as obras e inovações de Le Corbusier, com uma arquitetura que se integra ao urbano e Le Plan Libre. O MASP, o MAM que é muito parecido com a Villa Savoye, em Poissy-sur-Seine, na França e tantos outros projetos não existiriam;







  • Pavillon Suisse et MAM-SP

*a Arte Conceitual de Marcel Duchamp;

*a literatura que quebra as noções de tempo e espaço, com um discurso da consciência, de Marcel Proust (este autor foi recusado pela primeira editora na qual pretendia publicar À la recherche du temps perdu);

*as esculturas alongadas de Alberto Giacometti, sem elas não teríamos as personagens de Tim Bruton em "A noiva cadáver", além de todo o trabalho Expressionista deste escultor e pintor;







*Michel de Montaigne viveu no século XVI e é filósofo de questões do XXI.

E muitos outros trabalhos de artistas e pensadores fundamentais, como Victor Hugo, Flaubert, Balzac, Baudelaire, Magritte, Marc Chagall etc. Os quais tiveram coragem de realizar suas obras com ou sem o apoio da opinião vigente. Nem sempre o que está dentro dos padrões se torna imortal.


No contemporâneo das artes podemos navegar de 21 de setembro a 12 de dezembro na Bienal de São Paulo.
Como escreve Baudelaire no poema "Le Voyage": "...Plonger au fond du goufre, Enfer ou Ciel, qu'importe?/ Au fond de l'Inconnu pour trouver du nouveau!"
-Mergulhemos na vida realmente vivida: a Arte*.



A. Renard.

Sugestões de leitura:
http://angelinacorrearenard.blogspot.com/2010/01/obras-primas-recusadas.html http://angelinacorrearenard.blogspot.com/2010/01/cezanne.html

* Referência a Proust, ele escreve que a única vida realmente vivida é a Arte.

mardi 13 avril 2010

OuLiPo


O OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentiel) nasceu na França em 1960, seus principais autores são Raymond Queneau, Geroges Perec, Italo Calvino, François Le Lionnais, entre outros.
"Dois membros do OuLiPo, Marcel Bénabou e Jacques Roubaud, no artigo intitulado Qu´est-ce que l´OuLiPo?, dizem que " 'é a literatura em quantidade ilimitada, potencialmente produzível até o fim dos tempos, em grande quantidade, infinitas para todos os usos'. Sobre o autor que se dedica a essa prática dizem que é 'um rato que constrói seu próprio labirinto de onde se propõe a sair'." (Fonte: Wikipédia.)

O processo de escritura no OuLiPo é feito por contraintes: restrições-regras.
Por exemplo, Georges Perec escreveu o livro La Disparition, onde em 319 páginas ele se impos a contrainte de não utilisar a vogal "e", a mais usada na língua francesa, em nenhuma palavra dessa narrativa.


Site OuLiPo http://www.oulipo.net/

Há também o ALAMO ("Atelier de Littérature Assistée par la Mathématique et les Ordinateurs"): http://lapal.free.fr/alamo/
No CETIC ("Centro de Estudos de Texto Informático e Ciberliteratura"), site coordenado pelo Professor Pedro Barbosa, da Universidade Fernando Pessoa (Portugal), destaco o SINTEX (sintetizador de textos) e os artigos teóricos sobre literatura experimental.
http://www2.ufp.pt/units/cetic/

Vistem os sites, leiam os livros desses autores.
E que tal começarem seus textos à la OuLiPo, com contraintes e muita criatividade?

-Bon courage!


Angelina.

Le passé, l'oubli et le souvenir








Coloco abaixo uma análise que fiz do conto "Tourment d'amour" de Gisèle Pineau, (1956 -) escritora que nasceu em Paris, filha de pais guadalupenses, viveu na Martinica e em Guadeloupe, onde mora atualmente.
É um texto tocante. Aqui está minha leitura, um convite à reflexão sobre o tempo nesta narrativa.

Desejo que este texto possa ser um convite à leitura do conto de Gisèle.


LE PASSÉ, L'OUBLI ET LE SOUVENIR

"Tourment d'amour" nous montre une narratrice en première personne qui fait un portrait. La narratrice déjà femme nous raconte un événement de quand elle était "une fraîche et vierge bachelière" ¹
Elle avait un "projet d'album inédit sur les cases créoles"² et lá où elle rencontre la photo la plus intéressante, c'est "Lá où l'oeil des citadins ne s'aventure que par accident"³; elle y rencontre Barnabé et son histoire: "Elle (Barnabé) se met à parler. Je l'écoute"4.
La narratrice adulte se rapelle d'un événement vécu quand elle avait dix-sept ans. Nous avons deux temps dans le récit, le temps présent, avec les commentaires, souvent ironiques de la narratrice, et du temps présent elle nous emmene au passé, au temps de la mémoire.
La narratrice ne connaît que cela que Barnabé lui a raconté. Et nous ne connaissons que ce que la narratrice nous raconte.

Nous utilisons la division faite par Harald Weinrinch entre "monde comenté et monde raconté". Le récit commence au temps présent de la narratrice, elle nous raconte "monde raconté", un souvenir d'elle et qui était un souvenir de Barnabé quand elle lui a parlé.
Aux deux premiers paragraphes nous avons la narratrice au présent. Elle avec le passé composé, temps du commentaire, nous dit qu'elle a rencontré la soeur jumelle de sa voisine Boniface, Barnabé et la narratrice se demande si c'est le destin qui l'attendait pour faire que les autres sachent l'histoire de Barnabé. La narratrice prend son courage et sa plume "pour dêmeler les fils de la destinée..."5
Au troisième paragraphe nous sommes dans un autre univers. Au "monde raconté", l'indication de la date de 1964 nous projete dans le passé. Nous avons jusqu'au quatrième paragraphe avec les verbes à l'imparfait et au passé simple le récit de comment la fille, avec dix-sept ans, a connu Barnabé.
Ensuite nous avons le dialogue de Barnabé, il est au présent et au passé composé. La narratrice fait ses réflexions, s'explique à nous: "Alors, comprenez-moi..."6. Et aprés elle écoute Barnabé. Dans se moment-là nous sommes de nouveau au temps de la mémoire: "Elle a soulevé ses paupières et c'était comme si elle avait levé le rideau derrière lequel, tremblant d'être surpris, se terraient les trois complices que sont: le passé, l'oubli et le souvenir. Elle a passé une main fripée [...] et quarante annés de soufrances et de regrets ont glissé sur sa paume. [...] Et elle a raconté... elle a mis à plat, là, toute son existence. Moi, j'avais les yeux amarrés."7
Et maintenant, à la quatrième page du récit qui en a neuf, à la moitié de l'histoire, nous avons Barnabé jeune.
Nous connaissons les autres femmes du récit, la répression de père Archibald qui "tombait en aigriture"8, mais il reçoit la visite d'un messager, et il doit partir. Les soeurs ont vingt-quatre ans et à cause de la répression, quand elles sont libres, elles font l'amour avec beaucoup de garçons, "quand père Archibald est de retour, la danse folle s'arrête"9, mais elles sont enceintes, et elles prennent la fuite.
Les hommes dans ce récit sont comme des reproducteurs, ils ne doivent que mettre "sa sève trop fertile"10.
La question du destin et les coïncidences sont très presentes: les soeurs sont jumelles, leurs filles sont presque jumelles et leurs noms sont très pareils. Mirna et la narratrice ont dix-sept ans "en ce jour de grande révélation."11
La narratrice fait des commentaires ironiques, comme pour décrire le nègre Congo qui se mariera avec Boniface, il est "pauvre comme Job"12 et n'a qu'a offrir "sa misérable pitance, et son gros amour inutile."13
Après tout cela nous savons l'histoire de Barnabé. Nous avons vu Barnabé, Boniface, la narratrice, Myrtha et Mirna jeunes et aussi Boniface, Barnabé, Mirna et la narratrice plus vieilles.
"Tout à coup Barnabé se tait"14 et murmure que Mirna avait dix-sept ans. Ensuite nous sommes au présent et la narratrice se dirige à nous, avec des verbes au présent: "je vois, à vos yeux"15 et au passé composé: "la pauvre créature a retrouvé"16 . La narratrice "prend position quant à la vérité du conte"17.
Le récit est commenté, la narratrice raconte l'histoire qu'elle a vécu quand elle avait dix-sept ans et elle fait des commentaires.
Avec la structure du temps au récit nous avons la poètique: le présent, le passé et le souvenir.


¹"Tourment d'amour." Page 82.
²"Tourment d'amour." Page 80.
³"Tourment d'amour." Page 80.
4 "Tourment d'amour." Page 81.
5"Tourment d'amour." Page 79.
6 "Tourment d'amour." Page 81.
7 "Tourment d'amour." Pages 81 et 82.
8 "Tourment d'amour." Page 82.
9 "Tourment d'amour." Page 84.
10 "Tourment d'amour." Page 84.
11 "Tourment d'amour." Page 87.
12 et 13 "Tourment d'amour." Page 87.
14, 15 et 16 "Tourment d'amour." Page 87.
17 "Le temps" Page 48.


Bibliogaphie:
BENVENISTE, Émile. "Problemas de Linguistica Geral". Companhia Editora Nacional, Edusp: SP. 1976.
LUDWIG, Ralph (org.) "Tourment d'amour." de Gisèle PINEAU. In: "Écrire la parole de nuit »; la nouvelle littéraire antillaise. Paris: Gallimard (folio, essais), 1994: 79-87.
WEINRICH, H., "Le temps". Paris: Ed. Du Seuil, 1973.

samedi 10 avril 2010

Língua e sociedade




A língua vai além da visão funcional. Que seria por exemplo: trabalhar em uma empresa de origem X e por isso aprender uma língua estrangeira ou mesmo se aperfeiçoar na materna. Dentro de cada língua temos a cultura do povo que a fala e a transforma diariamente, temos ideologias e identificação nacional.
Na França, por exemplo, não havia uma língua nacional até 1539 quando François Primeiro aprovou a Lei Villers-Cotterêts, na qual decretou que todos os documentos administrativos franceses deveriam ser escritos em francês (não mais em latim) e as escolas de toda a França começaram a ensinar o François, que era o francês falado na região de Île de France (Paris...), com esta medida a língua francesa tornou-se o idioma oficial da França e criou-se um sentimento de nacionalismo. (Não vou discutir aqui se é bom sermos nacionalistas.)
Outro exemplo de unificação do idioma para fortalecer a nação pode ser visto no filme-poema Herói (2002), inspirado na lenda de Jing Ke.


Relacionado a esse tema teremos a Conferência de Jean-Louis Roy para o lançamento de seu livro “Qual o futuro para a língua francesa?”.

Data, local e horário:
15/04/2010 19:00 - 21:00
Teatro da Aliança Francesa - Rua General Jardim, 182 - Centro, São Paulo, São Paulo, Brasil


- Participem!


Angelina.

samedi 3 avril 2010

A literatura transforma sentidos
















Cada língua reflete a visão de mundo dos seus falantes, esse é um dos motivos pelo qual os professores de língua estrangeira insistem tanto para o estudante pensar na língua estrangeira, pois cada língua tem seu "óculos cultural"; temos o exemplo clássico do Linguísta Ferdinand de Saussure em que os ingleses dizem "driver" e os franceses "chauffeur" para designar o profissional que conduz veículos, isso revela que na língua inglesa se parte do radical de dirigir e na francesa é o calor, pois "chauffeur" vem de "chaud" que significa quente.

Para além do fato de como as palavras revelam ideologias e pensamentos, temos também as palavras que são modificadas pela literatura. Cito aqui dois exemplos da língua francesa:

Renard que significa raposa, entretanto até a publicação das obras de La Fontaine dizia-se goupil para este mamífero que adora ovos, e após Le roman de Renart* no qual a raposa chamada Renart (alterou-se para Renard no decorrer do tempo) comoveu tanto os leitores que o primeiro substantivo comum para raposa em francês foi esquecido e, então, pela força da literatura, hoje em francês usamos um ex-substantivo próprio (Renard) como comum.

Ocorreu um fato parecido quando o escritor Zola escreveu o livro Nana. (Zola viveu de 02/04/1840 a 29/09/1902, foi amigo de Cézanne e além de Naná escreveu Germinal entre outros títulos que fazem parte do seu Projeto Rougon-Macquart) Em Nana o nome da personagem principal era somente um apelido como Gigi e tantos outros, entretanto após o livro Naná começou a significar "menina bonita", as pessoas se identificaram tanto com a personagem principal, uma mulher de beleza única, que o substantivo próprio Naná foi transformado em adjetivo.

Portanto a língua está em constante modificação e a literatura participa dessa transformação.


*Imagens são gravuras de Marc Chagall.

Angelina.

"Arria Marcella, souvenir de Pompéi" - Literatura Fantástica




Coloco aqui um pouco do trabalho de pesquisa que realizei para Iniciação Científica sobre a Literatura Fantástica, com atenção especial para o autor Théophile Gautier e seu conto "Arria Marcella, souvenir de Pompéi".


O Conto Fantástico no Romantismo

O Romantismo surgiu no século XVIII, após o Classicismo, com ideais diferentes das da época clássica - o “mundo romântico” buscava o irracional, o subjetivo, o sentimental e o individual - e como escreve Ana Luiza S. Camarani, “nos países europeus o fantástico surgiu juntamente com o Romantismo e nos que houve maior abertura para a escola romântica ocorreu também uma literatura fantástica mais aprofundada, como na Alemanha e nos países anglo-saxões.” (1992)
Na França a adesão ao Romantismo foi lenta e progressiva diferente, por exemplo, da Alemanha. Na qual “as idéias renascentistas penetraram menos profundamente conservando-se, assim as lendas medievais e o clima onírico; onde a valorização da razão imposta pelo Classicismo não encontrou terreno propício a seu desenvolvimento: e onde a fé foi preservada pela renovação do sentimento religioso através, sobretudo, do protestantismo, do quietismo e do pietismo.” (CAMARANI, Ana Luiza S., 1997, p. 11)

O século XVIII propiciou o renascimento do irracional, na França, nesse período coexistiam o racional e o irracional, a paixão pela análise intelectual e a curiosidade pelo estranho e pelo maravilhoso, além do espírito filosófico e científico surge o Ocultismo.
Como escrevem J. e V. Ehrsam: “Essa contradição aparente é talvez uma constante nas relações entre o irracional e o racional. Quanto mais se afirma o espírito crítico, mais ressurge a necessidade de crer no sobrenatural. A Igreja e a fé deixaram a porta aberta a todos os fervores." Como disse Roger Caillois, o fantástico “nasce quando nós não cremos mais nos milagres.” (1985)
Todorov em As estruturas narrativas escreve: “O século XIX vivia numa metafísica do real e do imaginário, e a literatura fantástica nada mais é que a má consciência desse século positivista.”

O Misticismo, que se opunha à Razão, chegou a mais alta aristocracia. Nesse período de crise há três iluministas principais: o suíço Swedenborg, Martines Pasqually e Claude de Saint-Martin.

O fantástico que não aborda temas teológicos e sim sempre temas antropocêntricos, provém do “roman noir”, do qual utiliza sobretudo o sobrenatural e o gosto pelo demoníaco.
As influências estrangeiras para o fantástico foram o inglês Lord Byron, o escocês Walter Scott que recorreu a teoria dos espíritos elementares, fato que atraiu os primeiros românticos, porque nessa época acreditava-se nos espíritos elementares em decorrência da efervescência, no século XVIII, das doutrinas ocultistas. A principal influência para o fantástico francês foi o alemão E. T. A. Hoffmann.
Outro alemão Novalis foi um autor importante para Hoffmann, anterior ao grande escritor de contos fantásticos, nutriu a obra de Hoffmann de idéias românticas, nas quais o sonho e a loucura têm lugar de destaque.

Jaques Cazotte, foi o iniciador do conto fantástico na França. Charles Nodier, o percursor do fantástico, o qual inaugurou o tema ao mesmo tempo romântico e fantástico da penetração do sonho na vida real, ele “esboçava com muito mais ousadia que nenhum de seus contemporâneos, essa revisão de valores que dá, talvez, ao movimento romântico sua significação mais profunda.” (CAMARANI, Ana Luiza S., 1992)
Ele sugeriu um sexto sentido para os seres que estivessem além das normas da razão comum e abordou o ciclo das preocupações ocultas. As quais vemos também com Gérard de Nerval e no século XX elas surgem com os Surrealistas.
Outro autor importante para o fantástico foi Théophile Gautier, o qual inspirou-se bastante em Hoffmann, por exemplo a maioria de seus contos foram escritos com o narrador em primeira pessoa. Ele experimentou todas as tendências do fantástico desde La cafetiére (1831), em que demonstra sua admiração por Hoffmann, até Spirite (1866), em que percebemos as teorias místicas de Swedenborg e a influência do espiritismo.
Dentro desse contexto o Romantismo Francês era influenciado pela política, existiram dois romantismos, um liberal e um monarquista até o ano de 1826 em que os dois romantismos tornaram-se um só e floresceu o Romantismo sobre o Classicismo.
Na Alemanha o Romantismo possuiu duas fases, a primeira foi a de Jena - que buscava a livre fantasia, a crítica literária, a reflexão filosófica e a orientação cosmopolita -, Novalis colaborou na revista Athenäum, que era o principal modo de divulgação do grupo de Jena. A segunda fase do Romantismo foi a de Heildelberg, nesse período, após 1806, a Literatura assumiu o papel de oposição à política expansionista de Napoleão, - essa fase buscava os modelos da tradição nacional e mitológica, a filologia, a pesquisa histórica, a mitologia e a orientação nacionalista.
O fato da busca da orientação nacionalista aproxima bastante o Romantismo Alemão do Romantismo Brasileiro. Eloá Heise e Ruth Röhl escrevem: “com a Independência, busca-se, também aqui, a autonomia e a identidade nacional. Enquanto os autores alemães se voltam para a literatura popular da Idade Média, tida como expressão autêntica do espírito do povo, os brasileiros (por exemplo, José de Alencar) encontram no índio um símbolo equivalente, como imagem da nacionalidade.” (1986, p.48)
Outro autor brasileiro influenciado pelo romantismo europeu, mais especificamente pelo fantástico, foi Álvares de Azevedo, que no prefácio de Macário faz alusão a Hoffmann e ao escrever Noite na Taverna, mostra mais intensamente a influencia desse escritor sobre Álvares. Também no poema Idéias Íntimas Álvares refere-se ao alemão sem nomeá-lo.

Elementos da narrativa fantástica identificados em "Arria Marcella, souvenir de Pompéi":
* a mulher morta ressuscitada pelo desejo do amor ;
* o duplo;
* o “dia noturno”;
* narrador em terceira pessoa, testemunha;
* o inanimado animado;
* o amor impossível realizado;
* o passado mítico;
* a personalidade de Octavien desejosa de algo além do natural, como em: “às vezes também ele amava as estátuas, e um dia, ao passar no Museu em frente à uma Vênus de Milo, gritou: “Oh! quem te devolverá os braços para me apertar contra teu seio de mármore.” [...] “ele queria sair do tempo e da vida, e transpor sua alma ao século de Titus” (“Arria Marcella” p.251)
* a angústia da personagem;
* a hesitação;
* a dúvida da personagem se sonha, se está louco, se tem alucinações
* a sensualidade
* elementos de vampirismo : “Arria não comia mais, mas ela trazia sempre um vaso repleto de um vinho púrpura sombrio como um sangue coagulado” (“Arria Marcella” p.266)
* a embriaguez: “...les pauvres insensés enivrés par tes philtres.” (Idem p.268)
* realidade atemporal: “eu compreendi que eu a amaria além do tempo e do espaço” (“Arria Marcella” p.267)

O fantástico em Gautier muitas vezes é acompanhado da presença da noite “o dia noturno” que tem sua duração interiorizada no conto e “fixado na percepção de eternidade.[...] Mas o que importa mais ainda é a presença do sol interior brilhando permanentemente, sem ser submetido à sucessão cíclica das auroras e crepúsculos. [...] Através do conto fantástico Gautier busca esse sol. [...] apaga as fronteiras entre o possível e o impossível” (Eigeldinger )
A arte não precisa ser funcional. Entretanto quando a Literatua Fantástica, com sua quebra da realidade, consegue através de um outro mundo criticar e analisar o nosso ela nos liberta para a fantasia e assim permite que nos desvencilhemos tanto da censura social quanto da nossa "barreira de censura" e dessa forma podemos reconstruir nosso mundo real.


Angelina.

Bibliografia:

CAMARANI, Ana Luiza S. Tradução e Poética: Charles Nodier. São Paulo, 1997.
EIGELDINGER, M. “Introduction” In: Gautier, Th. Récits fantastiques. Paris: Flammarion, 1981 EHRSAM, J. et V. La littérature fantastique en France. Paris: Hatier, 1985.
MACHADO, G. M. (org.) O Romantismo Francês, seus antecedentes, vínculos e repercussões. Araraquara: UNESP, 1992, cap. O conto fantástico no Romantismo, CAMARANI, Ana Luiza S.
MAGALHÃES, R. Junior. Poesia e vida de Álvares de Azevedo. São Paulo: Ed. das Américas, 1962.
RÖHL, R. & HEISE E. História da Literatura Alemã. São Paulo: Ática, 1986.
RODRIGUES, S. C. O fantástico. São Paulo: Ática, 1988.
TODOROV, T. As estruturas narrativas. São Paulo: Perspectiva, 1970. (parte II, cap. 5)